Constelação do cão

Breve comentário sobre o Territorios e sobre o texto:

Gabriella Mikaloski

“Constelação do cão” é um dos dezoito textos reunidos em Territorios (1978), de Julio Cortázar. Neste livro, concebido em parceria com Julio Silva, conhecemos um Cortázar crítico de arte e crítico de si, porque escreve sempre a partir da obra de outros artistas, a partir de outros territórios, agora compartilhados.

“Constelação do cão” é escrito a partir da obra do pintor e poeta francês Jean Thiercelin, como forma de buscar “contato com uma obra admiravelmente secreta”, segundo Cortázar. O diálogo entre texto escrito e imagem joga com a fronteira entre ambos e a desestabiliza, de modo que a página é tomada por um só texto, território reinventado.

CONSTELAÇÃO DO CÃO

Em um terreno absoluto nenhuma pintura precisa da palavra, mas histórica, temporalmente, o pintor e o espectador contam de alguma maneira com ela, provocam-na e a alimentam. Nem sempre, no entanto, se nota esta diferença: se há uma pintura que reivindica ao crítico a posição de intercessor, há outra que por direito próprio prefere a voz do poeta. Diante das pinturas de Jean Thiercelin podem alinhar-se as referências culturais, serão ouvidas palavras como copta, arcaísmo, obsessão, bizantino, afrescos românticos; o poeta o sabe, mas sabe também de uma operação que se cumpre fora da história, que suscita na tela um território atemporal, um presente atávico em que a recorrência das imagens que Thiercelin chama os antepassados é mais uma vez espelho de um xamã que revela os arcanos da raça, a continuidade do grande terror de ser um homem e estar vivo entre morte e fogueiras. Acredito que certas figuras que nenhuma lei da razão reconhece regem nossa liberdade mais secreta, essa que lança suas pontes para fora das ordens da cidade; se já em uma ocasião falei de Rilke, o cão-lobo de Jean Thiercelin, não pode me surpreender hoje, enquanto olho suas pinturas, que venham à minha memória uns versos em que o poeta de Duíno se pergunta, enquanto escreve, quem ou quantos estão murmurando junto com ele e através dele as palavras que traça sua pena; também Thiercelin há se de perguntar que mãos seguram com a sua este pincel de onde nascem os rostos de uma linhagem obstinada, o murmúrio pavoroso do sangue comum que entrelaça tantas veias para zombar do coágulo final, para lançar seu tigre a este salto infinito que termina e renasce em nossos olhos.

Gabriella Mikaloski possui graduação em Letras: português – inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi aluna de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura na mesma instituição. É especialista em literatura hispano-americana pela UFRJ. Atualmente cursa o doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro em Ciência da Literatura. Estuda a obra de Julio Cortázar desde 2015.

CONSTELACIÓN DEL CAN

En un terreno absoluto ninguna pintura necesita de la palabra, pero histórica, temporalmente, el pintor y el espectador cuentan de alguna manera con ella, la provocan y la alimentan. No siempre, sin embargo, se advierte esta diferencia: Si hay una pintura que reclama al crítico como intercesor, hay otra que por derecho propio prefiere la voz del poeta. Frente a las pinturas de Jean Thiercelin podrán alinearse las referencias culturales, se escucharán palabras como copto, arcaísmo, obsesión, bizantino, frescos románicos; el poeta lo sabe, pero sabe asimismo de una operación que se cumple fuera de la historia, que suscita en la tela un territorio intemporal, un presente atávico en el que la recurrencia de las imágenes que Thiercelin llama los antepasados es una vez más el espejo del shamán que revela los arcanos de la raza, la continuidad del gran terror de ser un hombre y estar vivo entre muerte y hogueras. Creo que ciertas figuras que ninguna ley de la razón reconoce, rigen nuestra libertad más secreta, ésa que tiende sus puentes por fuera de los órdenes de la ciudad; si ya en una ocasión hablé de Rilke, el perro-lobo de Jean Thiercelin, no puede sorprenderme hoy, mientras miro sus pinturas, que vengan a mi memoria unos versos donde el poeta de Duino se pregunta, mientras escribe, quién o quienes están murmurando junto con él y a través de él las palabras que traza su pluma; también Thiercelin ha de preguntarse qué manos sostienen con la suya ese pincel de donde nacen los rostros de un linaje obstinado, el murmullo pavoroso de la sangre común que enlaza tantas venas para burlarse del coágulo final, para lanzar su tigre a ese salto infinito que termina y renace en nuestros ojos.

CORTÁZAR, Julio. Territorios. 1ª ed. México: Siglo XXI Editores, 1978, pp. 88-9.
Tradução: Gabriella Mikaloski



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